Democratização da Comunicação, Reformas de Base e Direitos Humanos

5 de julho de 2012

A saúde em Cuba

Desde os tempos da faculdade que Cuba me interessa. Um dos pontos chave desse interesse sempre foi o sistema de saúde do país. Li muito e ouvi falar mais ainda, que se tratava do melhor do mundo, tinha muita curiosidade em conhecê-lo de perto.
No dia 22/04, meu primeiro dia em Caimito, passeando de bicicleta livremente pela cidade, tive a oportunidade de visitar uma policlínica. O primeiro contato e a primeira surpresa: Não havia filas! Aliás, havia sim, uma, com cinco pessoas para pegar remédios. Ninguém dormindo nos corredores, ninguém esperando um médico que nunca virá.
Quarta-feira, dia 25/04, tivemos a tão esperada conferência sobre o tema e de quebra um encontro fraterno com médicos internacionalistas. Aí pudemos aprender um puco mais sobre as estatísticas e a história da saúde no país. Abaixo, segue os dados apresentados na conferência e em pesquisas históricas que eu já possuía.
O governo da Ilha, logo após a Revolução, desenvolveu um sistema nacional de cobertura a todos os cidadãos, sem exceções de nenhum tipo. O sistema foi dividido da seguinte maneira: o médico de família que, geralmente, está em pequenas clinicas a cada duas quadras, garantindo o trabalho de prevenção de doenças; o clínico geral de bairro, como os nossos postos de saúde; os hospitais de zona e os institutos especializados, que cuidam de traumas e/ou doenças que precisam de tratamento a longo prazo ou têm maior complexibilidade.
Em Cuba, o governo não financia a iniciativa privada, pois não existe hospital privado ou plano de saúde. Todo o sistema, incluindo todo e qualquer tipo de atendimento, desde uma unha encravada a uma cirurgia no cérebro, é gratuito. Os medicamentos que só podem ser adquiridos com receita médica, são quase irrisórios, pois o Estado subsidia a maior parte.
Toda a assistência odontológica é oferecida pelo governo também.
O resultado prático de tudo isso fica visível nas comparações efetuadas pelas Nações Unidas. Mesmo com uma população pobre e oprimida por um bloqueio econômico genocida, Cuba ocupa hoje, o terceiro lugar no continente americano, quando se trata da expectativa de vida, 76 anos para os homens e 80 para mulheres com uma esperança de vida média de 79,1 anos para o povo cubano. Quando se trata das crianças, os dados apontam para o índice de cinco mortes a cada 1.000 nascimentos, nível comparável, na América, apenas ao do Canadá.
Se pararmos para pensar que antes da Revolução de 1959, existiam na Ilha, apenas seis mil médicos, a maioria em Havana e que estes estavam, quase todos, dedicados ao exercício privado da medicina. A expectativa de vida da população cubana era inferior a 60 anos e a mortalidade infantil chegava ao absurdo patamar de sessenta para cada mil nascidos vivos, à época, o país contava com apenas uma escola de medicina, fica claro o avanço conseguido pelos revolucionários.
O modelo de saúde cubano teve diferentes etapas. Na década de 1960, criou-se o Serviço Médico Rural, visto que a população do campo não possuía cobertura médica à época do da Revolução, iniciou-se então, um amplo programa de vacinação com a massiva participação da sociedade. Na década de 1970, a docência médica foi desconcentrada e espalhada por todas as províncias do país. Nos anos de 1980, foi estabelecido o modelo de medicina familiar que constitui o pilar mais importante dos avanços na área; iniciaram-se a introdução da tecnologia avançada e o desenvolvimento acelerado da industria médico-farma-céutica. A partir dos anos de 1990, generaliza-se a introdução dos avanços da ciência e da técnica na saúde.
Para uma população de pouco mais de 11 milhões de habitantes, distribuídos em 14 províncias e no município especial Isla de la Juventud, Cuba conta com mais de 68.000 médicos, desses, 31.059 são médicos da família, 81.459 enfermeiros, 10.000 dentistas e mais de 66.000 técnicos da saúde. Estudam no sistema nacional de saúde 49.707 pessoas, dos quais 9.226 são estrangeiras de todos os continentes.
- Mais de 14.671 consultórios de médicos da família
- 445 policlínicos
-164 clínicas de odontologia
- 265 hospitais
- 13 institutos de pesquisa
- 22 faculdades de Medicina
- 645 outras instituições
Se no ano da Revolução Cubana, Cuba contava apenas com uma Escola Médica e 6000 médicos, hoje conta com 70.594 médicos, dos quais 33.769 são médicos de família, com uma cobertura total do território, sendo dado grande ênfase às zonas rurais.
Para isso, Cuba necessitou de realizar um conjunto de reformas e investimentos, tendo priorizado a formação de recursos humanos, em quantidade e qualidade, e a criação de uma rede de Institutos e Faculdades, existindo hoje:
. 22 Faculdades de Medicina
. 1 Escola Latinoamericana de Medicina com 12 Faculdades de Formação
. 4 Faculdades de Estomatologia
. 4 Faculdades de Enfermagem
. 4 Faculdades de Tecnologias da Saúde
. 1 Escola Nacional de Saúde Pública com 15 centros provinciais no país.
. 29 Faculdades para o programa de formação de médicos latino-americanos.
. 245 Policlínicos universitários
Sendo que o número de estudantes matriculados no sistema de formação ascende a 159.526, entre estes 149.123 cubanos e 10.403 de outros países.
Além do trabalho na própria ilha, o governo cubano possui o projeto de médicos internacionalistas que, ao contrário de Brasil e Estados Unidos que enviam militares a zonas de conflito e países pobres, envia médicos na tentativa de sanar epidemias e amenizar os problemas, onde a qualidade de vida é reduzida pela falta ou não existência de assistência médica. Esse projeto teve início na década de 1960.
1960
Chile Terremoto
5000 mortos
Equipa médica
1970
Peru Terremoto
60000 mortos
Equipa médica, 6 Hospitais Rurais
106000 unidades de sangue
1972
Nicaragua Terramoto
5000 mortos
Equipa médica e medicamentos
1974
Honduras Furacão Fifi
2000 mortos
Equipa médica
1990
União Soviética Chernobyl
17733 crianças tratadas em Cuba,
até Outubro de 2004
1996
Brasil Exposição a radiação
52 doentes tratados em Cuba
1998
América Central Furacão Mitch
30000 mortos
Equipas médicas
1998
Haiti Furacão Georges
Equipa médica
1999
Venezuela Cheias
9000 mortos
Equipa médica
2000
El Salvador Epidemia de Dengue
10000 casos em 16 semanas.
Equipa médica, equipamento
e aconselhamento
Em 19 de Setembro de 2005, após a catástrofe causada pelo Furacão Katrina em New Orleans, nos Estado Unidos, o governo cubano criou o Contingente “Henry Reeve”, que atende situações de grandes desastres naturais e epidemias. Composto por 10.000 médicos, enfermeiros e graduandos do curso de Medicina, está hoje deslocado para o Haiti, onde atende as vítimas do terremoto de Janeiro de 2010.
Outubro 2005
Paquistão Terramoto
75000 mortos, 3,3 milhões de desalojados
2465 equipas médicas
32 hospitais de campo
(durante 7 meses)
Outubro 2005
Guatemala Furacão Stan
670 mortos, 300000 desalojados
600 equipas médicas
e medicamentos
(3 meses)
Fevereiro 2006
Bolívia Cheias
140 equipas médicas
20 hospitais de campo
Junho 2006
Indonésia Terramoto
6000 mortos
135 equipas médicas
2 hospitais de campo
Os médicos internacionalistas cubanos estão divididos entre vários programas pelo mundo na Argélia e a China, por exemplo, Cuba realiza um intercâmbio de bens e serviços, mediante o envio de 280 médicos para a Argélia e a construção de 9 centros oftalmológicos na Argélia e 1 na China.
O Programa Integral de Saúde realizado por profissionais cubanos, está presente hoje em 31 países com 2.777 colaboradores, onde 1.979 são médicos. Os 400 departamentos, em que existe esta colaboração atingem uma população de 59.174.683 pessoas, sendo realizadas, nos últimos 7 anos de cooperação, 80.285.750 consultas médicas, 2.152.479 intervenções cirúrgicas, e salvando-se 1.528.497 vidas.
Local
Trabalhadores
Médicos
População atingida
África Subsahariana (23 países)
1 117
816
48.573.000
América Latina (5 países)
2 232
1 592
13.026.055
Caribe (7 países)
640
322
5 975 609
Norte de África e Médio Oriente (1 país, RASD)
9
8
n/d
Ásia e Oceânía (6 países)
249
178
964 416
Europa (1 país: Ucrânia)
6
4
N/d
Em 2004 o governo cubano criou um programa de cooperação internacional chamado Operacíon Milagro na tentativa de reduzir os problemas relacionados a visão em países que não têm a possibilidade de dar cobertura nessa área à seus habitantes. Fazem parte desse projeto 239 médicos, beneficiando gratuitamente 513.664 pacientes, destes 95.131 da América Latina, 24.797 do Caribe, 305.930 Venezuelanos e 97.806 cubanos. Também foram operados 425.858 doentes provenientes do resto do mundo. Além disso, foram criados 29 centros cirúrgicos de alta tecnologia em 6 países (12 na Venezuela, 11 na Bolívia, 2 Equador, 1 na Guatemala, 2 no Haití e 1 em Honduras).
A parceria com Bolívia e Venezuela se estende através do “Programa Especial com a Bolívia e a Venezuela”. No “Plano Barrio Adientro”, da Venezuela, trabalham 24.464 cubanos, onde 13.153 são médicos, atuando em todo o país, com maior relevância às zonas rurais, onde a assistência médica praticamente não havia. Na Bolívia, colaboram 1.607 cubanos, destes 1.220 médicos, atuando nas 9 províncias do país, em 20 Centros de Diagnóstico Integral doados por Cuba.
Fazendo jus ao lema cubano que diz que solidariedade não é dividir o que nos sobra, mas o pouco que temos, os cubanos garantem o melhor atendimento do mundo aos seus conterrâneos e ainda fazem o mesmo trabalho em países que possuem dificuldades nessa área. Enquanto conversava com Leticia, uma cubana que trabalhava conosco no acampamento, era difícil explicar a ela que no Brasil pessoas morrem por falta de médicos, não há pediatras suficientes para atender a todas as crianças, e que os doentes têm de dormir nos corredores dos hospitais. Fácil de entender a sua incompreensão quando analisamos os dados da medicina cubana, “como pode existir pessoas dormindo em corredores no Brasil, um dos países mais ricos do mundo se em Cuba, mesmo com todos os problemas econômicos isso não ocorre?” Encerro o texto com esse questionamento, esperando que algum dia, possamos resolver os nossos problemas como os cubanos conseguiram resolver os deles.

Pelo professor Eliton Felipe de Souza no Diretório Municipal PSOL Joinville

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