Democratização da Comunicação, Reformas de Base e Direitos Humanos

16 de outubro de 2011

Comissão da Verdade: Em defesa da história de lutas do PCdoB, uma resposta ao PCB

Evento - PCdoB declara apoio à Dilma
Na condição de ex-integrante do PCdoB que militou intensamente no partido de 1992 a 1999 onde obtive a minha iniciação e formação política e sobretudo como defensor da unidade popular e das esquerdas, venho a público responder aos ataques perpetrados contra o PCdoB pelo PCB em nota da sua Comissão Política Nacional.
Não é de hoje que PCB ataca da forma mais estreita, sectária e equivocada os Governos Lula e Dilma e os partidos e organizações de massas que lhe dão apoio e sustentação. Esta agremiação não teve a compreensão que dar sustentação aos nossos governos da esquerda brasileira é a tarefa revolucionária da maior importância estratégica para o presente e o futuro e que sem as conquistas alcançadas pelos atuais governos de esquerda em nosso país talvez não seja nem sequer possível a continuidade, a longo prazo, das liberdades democráticas e avanços sociais conquistados e muito menos será possível a vitória de um projeto revolucionário e socialista. O PCB também não teve o entendimento dos limites do alcance das transformações políticas e econômicas que hoje é possível implementar em nosso país dada a atual correlação de forças. Infelizmente o PCB tem optado pelo caminho fácil da oposição mais radical, tentando inclusive na sua retórica sectarizada igualar os governos petistas e da esquerda com a direita mais repressiva e reacionária da América Latina. Quanta miopia política e falta de visão estratégica vindo de um partido com tanta história, excelentes formulações teóricas e tão valorosos companheiros de luta.
Mas agora o PCB passou dos limites em sua estreiteza sectária ao lançar as mais absurdas e vis acusações contra o PCdoB, chegando ao cumulo de chamar-lo de “partido comunista da mentira”, negando o seu caráter comunista e o repudiando, de acusar-lo irresponsavelmente de querer “esconder” a verdade sobre a ditadura ou de “perdoar” e “absolver” os torturadores e assassinos que serviram o Regime Militar, de “enterrar” seus próprios heróis, tudo isso segundo dizem, para o PCdoB manter cargos no governo. Toda essa ensandecida chuva de ataques foi motivada por causa de uma votação numa comissão do congresso de um projeto de revisão da lei da anistia de autoria da companheira Luiza Erundina (PSB) que o Governo Dilma não apoiou apenas porque avaliou que neste momento poderia inviabilizar a instalação da Comissão da Verdade ao acirrar a oposição das forças reacionárias, além de uma proposta similar já ter sido rejeitada em votação pelo STF. Portanto não se trata de nenhum “perdão” ou “absolvição” dos torturadores e assassinos da ditadura, mais sim de uma estratégia conjuntural, seja por parte do Governo Dilma, seja por parte do PT e PCdoB ou do valoroso Deputado Aldo Rebelo sempre leal ao governo das forças populares. É legitimo a divergência, discordância e critica de quaisquer companheiros das esquerdas seja em relação a não-revisão imediata da lei da anistia seja com as limitações no projeto de criação da Comissão Nacional da Verdade. Fica a critério de cada um e de cada força política e movimento social defender o que julga ser mais correto ou viável no momento e também criticar as propostas que consideram incorretas. Mas daí a partir para um ataque difamatório contra partidos e companheiros da esquerda é se colocar, ainda que involuntariamente, a serviço das forças mais reacionárias para as quais interessa e muito a divisão das forças populares e progressistas.
Eu discordo do fato de os Governos Lula e Dilma não terem rompido com a política econômica neoliberal e tentado emplacar um modelo desenvolvimentista a exemplo do que foi feito na Argentina pelos Governos Kirchner, o que obviamente também teria que ser feito em aliança com alguns setores do capital, como os representados pelo falecido Vice de Lula, José de Alencar, setores estes que talvez nem tivessem força (ou interesse) em bater de frente com o capital financeiro hegemônico e seu modelo monetarista. Enquanto o povo brasileiro não se organizar, mobilizar e conscientizar para a necessidade de uma revolução socialista, a exemplo da Revolução Cubana e da Revolução Bolivariana que está em curso na Venezuela, não temos alternativa se não tentar arrancar conquistas dentro dos limites do capitalismo até se acumular forças suficientes ou a conjuntura mudar e favorecer uma transformação mais profunda e acelerada da sociedade. Também acho tímida e recuada a proposta de Comissão da Verdade e que o projeto deveria ser revisto juntamente com a lei da anistia. Mas discordo daqueles que acham que é farsa ou engodo o projeto apresentado e concordo com aqueles que tem a preocupação de que não devemos desmoralizar de ante-mão algo que tanto tempo levamos para conquistar. Acho francamente que hoje não há correlação de forças e mobilização social suficiente para se chegar ao processamento e prisão dos torturadores e assassinos do Regime Militar nem para o rompimento com o modelo econômico imposto pelo capital financeiro, amarrado por contratos firmados nos governos neoliberais de Collor e Fernando Henrique e defendido com unhas e dentes pelo Partido da Imprensa Golpista (a mídia capitalista e monopolista). Cabe a nós construir uma nova correlação de forças em nosso país, o que entretanto não será possível se houver a prevalência do sectarismo a dividir as esquerdas. E não se faz revolução tendo como base o voluntarismo e o divisionismo.
Ao adotar esta postura fratricida contra os companheiros do PCdoB, é o PCB quem se apequena, se atirando de cabeça ao gueto do sectarismo e seguindo a máxima já muito conhecida de que os extremos sempre andam lado-a-lado, paralelos e coincidem em suas posições de modo que a extrema-esquerda e a extrema-direita acabam se auxiliando mutuamente. O PCB de hoje sofre da doença do esquerdismo infantil que Lênin já alertava que atingia alguns seguimentos comunistas. E como não bastasse o PCB ainda por cima quer fazer “política” olhando pelo retrovisor ao criticar o PCdoB por ter feito a Guerrilha do Araguaia ou querendo disputar o espólio do Partido Comunista do Brasil – PCB, o velho Partidão, fundado em 1922, do qual o atual PCB herdou a sigla e o PCdoB herdou o nome de Partido Comunista do Brasil. Ao invés de tacar tanta pedra em telhado alheio o PCB deveria isso sim fazer uma extensa auto-critica dos seus próprios graves equívocos cometidos desde que capitulou a traição Kruschovista na década de 1960 se tornando um partido revisionista que trocou de nome e de princípios se transformando por isso mesmo e pela negação de apoiar a luta armada contra a ditadura numa fábrica de dissidências, chegando aos mais vergonhosos posicionamentos contra os companheiros que tiveram a coragem de pegaram em armas contra o regime militar. Afastou de forma golpista Luis Carlos Prestes da direção do partido até que por fim se desmascarou como um partido de traição ao socialismo abandonado a sigla PCB e se transformando no PPS a serviço da aliança conservadora PSDB-DEM e apoiador das “reformas” neoliberais. O atual PCB reúne os náufragos do antigo partidão que tiveram a coragem de não capitular ao liquidacionismo dos traidores do socialismo e conseguiram refunda-lo da mesma forma que o PCdoB reuniu aos que tiveram coragem em 1962 de se levantar contra o poderio de Krushov e a sua traição ao comunismo teatralizada no seu relatório nada secreto contra Stalin. A (des)stalinização, ou melhor seria dizer (des)socialização, e o revisionismo (adulteração dos princípios comunistas), dos quais o velho PCB foi cúmplice no Brasil, dividiram irremediavelmente os comunistas do mundo inteiro e desmoralizaram toda uma época pioneira e gloriosa de construção do socialismo na União Soviética que apesar de todos os erros e desvios cometidos cumpriu um papel fundamental na derrota do Nazismo e na expansão da revolução socialista nos dando a esperança da vitória do socialismo no mundo inteiro. Em relação aos vergonhosos fatos do seu passado, o atual PCB parece lavar as mãos como se nada tivesse com isso, ao mesmo tempo que se reivindica como único herdeiro do velho partidão. Quanta incoerência, parcialidade e unilateralismo.
Não fosse a coragem de tantos heróicos companheiros que romperam com o antigo PCB e fundaram as diversas organizações de combate contra a ditadura e de luta armada guerrilheira (ALN, PCBR, MR8, etc), incluída aí a Guerrilha do Araguaia (um grande acerto do PCdoB), não teria havido resistência a ditadura no Brasil se tivéssemos dependido do Partidão. E se João Amazonas e seus companheiros não tivessem tido a coragem e coerência de romper com o PCB e refundar o Partido Comunista do Brasil, sob a sigla PCdoB, muito provavelmente não haveria no Brasil nenhum partido comunista forte, coerente e viável o suficiente para ser um fator unificador da nossa tão dividida esquerda que parece que só se une mesmo é na cadeia, como dizem nossos detratores. Enquanto o PCdoB é um partido que não para de crescer, elege bancadas parlamentares e já se mostrou capaz de disputar cargos majoritários, alem da grande contribuição que tem dado a organização dos diferentes movimentos populares e a unidade das esquerdas desde a formação da primeira Frente Brasil Popular (PT-PSB-PCdoB) em 1989, o atual PCB em contraste é um partido diminuto que não elege ninguém e tem fraca presença nos movimentos sociais nos quais atua sectariamente atacando as direções da UNE e da CUT com a mesma virulência como ataca os Governos do PT e o PCdoB.
A verdade por trás destes ataques é que os nossos equivocados companheiros do PCB não se conformam com a simples existência do PCdoB e por isso tentam em vão desmoralizar-lo para assim tentar negar o papel do PCdoB não só de partido comunista mas de principal agremiação comunista do Brasil que tantos serviços prestados tem ao povo brasileiro, seja na luta contra a ditadura e pela redemocratização, na reorganização dos movimentos populares e do movimento estudantil que teve como marco histórico a memorável campanha pelo impeachment de Collor. O PCdoB teve também um papel fundamental no processo que alavancou e viabilizou a primeira campanha de Lula em 1989 e fez dele uma alternativa viável para as eleições seguintes até a sua vitória. O velho PCB ao contrario jogou pela divisão lançando em 1989 o gorbatchovista Roberto Freire como candidato, o mesmo que liquidaria o PCB poucos anos depois, entregaria a documentação histórica do partido nas mãos da Fundação Roberto Marinho e se tornaria aliado de primeira hora do PSDB. O PCB refundado apoiou a primeira eleição vitoriosa de Lula, mas logo depois partiu para a oposição xiita. Oscilante, apoiou criticamente Lula e Dilma para ajudar a impedir a vitória da direita, para uma vez mais voltar para o caminho estreito da oposição trotskista.
É natural que no processo político-eleitoral e no seio dos movimentos populares hajam discordâncias e disputas de idéias e projetos pelas diferentes agremiações de esquerda, assim como entre as organizações comunistas e até dentro de um mesmo partido como ocorre dentro do PT. Sempre foi assim e sempre será. Mas levar as diferenças tão longe ao ponto de desferir tão destrutivos ataques contra companheiros da esquerda como faz o PCB é se colocar como um braço “esquerdo” (ou será como dedo mindinho no caso do PCB...) da direita mais reacionária que trabalha diurnamente para derrubar o governo petista. Ao agir desta forma, quem não merece ser chamado de partido comunista é o PCB que quando muito é um partido trotskista disfarçado. E trotskista por trotskista fico com os companheiros do PSOL cujo posicionamento em relação ao PT na questão da revisão da lei da anistia nem de perto chegou aos ataques difamatórios perpetrados pelo PCB contra o PCdoB.
Discordo veementemente da oposição feita pelos esquerdistas radicais e trotskistas ao governo de esquerda capitaneado pelo PT em aliança com o PCdoB, PSB, PDT e partidos de centro como o PMDB (sem as necessárias alianças com o centro não haveria base de sustentação no parlamento para o governo da esquerda). Mas apesar das divergências que nos separam, gosto de muitas das posições e teorizações do PCB e PSOL. Até votei na Heloisa Helena (PSOL) no primeiro turno da eleição presidencial de 2006 e votaria no Ivan Pinheiro (PCB) ou no Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno da eleição de 2010 se não tivesse meus compromissos políticos firmados com a vitória das forças de centro-esquerda aglutinadas na campanha da Dilma e dados os riscos inerentes a um segundo turno como se viu na guerra suja e espúria das forças reacionárias contra ela.
Quanto aos ataques sectários do PCB contra o PCdoB, contra os setores de Esquerda dirigentes das entidades de massas como a UNE e a CUT que não seguem a linha do radicalismo xiita e contra os Governos de Esquerda do Brasil, acho tais ataques simplesmente absurdos e indignos de um partido que se reivindica herdeiro do velho partidão. Ao agir com tamanha estreiteza o PCB se apequenou em um partido radicaloide que trava a falsa luta que opõe companheiro contra companheiro e só serve para desmoralizar os comunistas. Estranhamente queriam a alguns anos atrás que o PCdoB abandonasse a sua sigla e enterrasse a sua história para se fundir com o PCB. Mas como não se faz unidade abrindo mão de princípios, o PCdoB recusou tal proposta. No fundo a causa do da vociferação do PCB para com o PCdoB é a disputa pelo posto de Partido Comunista do Brasil. Mas como o castigo vem a cavalo, enquanto o PCB persistir em tão ignomio e abjeto sectarismo jamais deixará de ser um partido inexpressivo na sociedade, bem diferente da força sempre crescente do PCdoB e dos seus aliados PSB, PDT e sobretudo do PT que é o maior partido de esquerda da América Latina há décadas e que mudou os rumos do Brasil ao eleger um operário e uma mulher ex-guerrilheira naqueles que foram os primeiros governos nitidamente de esquerda da nossa história e que tantos avanços já conquistaram: inclusão social, volta do crescimento econômico, geração de empregos, programas sociais, expansão das universidades públicas e do acesso ao ensino superior, uma política externa independente que não se curva as exigências dos EUA e que busca a integração com nossos irmãos latinos apoiando Cuba, Venezuela e os demais governos progressistas Latinos, etc.
Viva os Governos Democráticos e Populares
Viva a Unidade das Esquerdas
Viva todos os Comunistas: do PCdoB, do PT, do PSB, do PDT, do PCB, do PSOL dos demais partidos ou sem partido
Por Marcelo Revolucionário no Rede Democrática

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