Democratização da Comunicação, Reformas de Base e Direitos Humanos

3 de outubro de 2010

Eric Nepomuceno do jornal "Brasil de Fato" analisa a imprensa brasileira



Considerado fundador do Estado moderno no Brasil, Getúlio Vargas foi alvo de uma contundente campanha encabeçada pela Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. Acabou se matando com um tiro no coração em agosto de 1954. Criador de Brasília e um dos presidentes mais populares do Brasil, Juscelino Kubitschek enfrentou a feroz resistência do conservador O Estado de S. Paulo. Acusado de corrupção, jamais algo foi provado contra ele. Dirigente histórico da esquerda, o trabalhista Leonel Brizola foi governador do Rio de Janeiro em 1982, durante a democratização, e passou seus dois governos sob implacável (e frequentemente mentirosa) campanha do mais poderoso grupo de comunicação da América Latina, que controla a TV Globo e o jornal O Globo.

Entretanto, nunca antes um mandatário foi tão duramente perseguido pela mídia quanto Luiz Inácio Lula da Silva. Com frequência assombrosa, as regras básicas do mínimo respeito cidadão foram abandonadas. Bom exemplo disso é a revista Veja, a de maior circulação no país, que, sem resquícios de pudor, publica escândalos em sequência sobre os quais nada é comprovado. Na sua página na internet, abriga comentaristas que tratam o presidente da nação por “essa pessoa”. O mesmo grupo que controla a TV Globo, cujo noticiário atinge a maioria da população; o jornal O Globo, principal diário do Rio e segundo em circulação no Brasil; e a principal cadeia de rádio, a CBN, não perde oportunidade de destroçar Lula e seu governo, sem se preocupar nem um pouco em verificar a veracidade de seus ataques. O jornal Folha de S.Paulo, o de maior circulação no país, divulga qualquer denúncia como verdadeira e não se furta em aceitar que um ex-condenado por traficar dinheiro falso, receptar mercadorias roubadas e praticar golpes em série se transforme em “consultor de negócios” e faça acusações sem nenhuma prova. Até o conservador O Estado de S. Paulo, que até o momento era o mais equilibrado na oposição ao governo, optou por ingressar nesse jogo sem regras nem objetivo.

Frente à inércia dos principais partidos de oposição (PSDB e DEM), os meios de comunicação ocuparam, organicamente, este espaço. Isso foi admitido, há alguns meses, pela presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, da Folha de S.Paulo. Mais grave, porém, é o que nenhum dos grupos admite: ainda antes do início da campanha, esse enorme partido informal (mas muito eficaz) optou por um candidato (José Serra) que não correspondeu às suas expectativas. E, frente à incapacidade da sua campanha eleitoral, os meios de comunicação decidiram atacar a candidatura de Dilma Rousseff, ignorando os limites éticos.

Essa politização absoluta e essa tomada de posição da imprensa acabaram provocando a reação de Lula. As críticas do presidente, por sua vez, geraram uma furiosa onda de novas denúncias, indicando que o presidente pretende limitar a liberdade de expressão e de opinião. Contudo, em seus quase oito anos de mandato, Lula, em nenhum momento, representou uma ameaça à grande imprensa, por mais remota que fosse. Alguns movimentos para impor regras e impedir a manutenção de um quase monopólio foram neutralizados pelo próprio Lula, que optou por não enfrentar as oito famílias que concentram o controle da mídia no maior país latino-americano.

A liberdade de imprensa é absoluta no Brasil, chegando ao ponto de ter se transformado na liberdade de caluniar. Os ataques grosseiros, frequentemente embasados em nada, contra Lula e seu governo aparecem todos os dias, sem que ninguém trate de impedi-los. E ainda assim os grandes meios não deixam de denunciar ameaças à liberdade de expressão.

Talvez a razão para isso tudo esteja no que ocorreu quando a democracia voltou ao Brasil, 25 anos atrás. Ao contrário de outros países que se reencontraram com a democracia – penso especificamente na Espanha e na Argentina –, no Brasil, a imprensa não se democratizou. Não surgiram alternativas correspondentes aos diversos segmentos políticos e ideológicos. Prevaleceu um cenário no qual cada veículo apresenta o eco de uma mesma voz, a do sistema dominante.

Para esse sistema, Lula era um risco suportável. Já a sucessão é outra coisa. E se o candidato da oposição se mostrou incapaz, o verdadeiro partido oposicionista revela sua face mais feroz. Ao exercer a liberdade do denuncismo barato, mostra seu inconformismo com a manifestação do desejo dessa massa de ignorantes a qual se chama povo. A essa gente que, de marginalizada, passou a se considerar cidadã. E isso sim é inadmissível. (Publicado originalmente no Jornal Página/12)
Eric Nepomuceno é jornalista, tradutor e escritor.

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