Democratização da Comunicação, Reformas de Base e Direitos Humanos

30 de janeiro de 2011

Egito: jovens organizados pelas redes sociais lideram protestos contra a ditadura

Ahdaf Soueif é autora do best-seller O Mapa do Amor e muitos outros livros. Ela vive no Cairo e em Londres.
Há um nível de organização surgindo aqui no Cairo, que pode ser melhor descrito como a solidariedade em ação.
Paciência é uma virtude, mas tem limites e, agora, finalmente, parece que chegamos ao nosso. E apropriadamente são os jovens do país quem estão nos conduzindo à revolução. Eles já sofreram o suficiente com o desemprego, a deterioração da educação, a corrupção, a violência policial e a impotência política.

Como é sabido, eles organizaram os protestos de terça-feira através do Facebook, em reuniões fechadas virtuais e reais. Eram cerca de 20 grupos que surgiram nos últimos cinco anos. A questão sempre foi como e quando eles iriam se unir? O fizeram na terça-feira, quando se fundiram e foram às ruas. Com eles uma multidão de egípcios, jovens e velhos, inspirada no que aconteceu na Tunísia.

Eles organizaram protestos em Assiut, em Zuwayyid Sheikh, no Sinai, em Alexandria, em Suez e outras cidades do Egito. No Cairo eles escolheram três locais: Shubra, Mataziyya e a Liga Árabe Street. Estas foram escolhas estratégicas: bairros naturalmente lotados, com muitas ruas laterais à estrada principal. Os jovens ativistas começaram sua marcha em áreas próximas, recolheram pessoas pelo caminho e quando chegaram, por exemplo na Liga Árabe, eram mais de 20 mil.

A Central das Forças de Segurança se viram metidas no caos quando eles formaram cordões para romper as barreiras policiais. Quando levantaram escudos e cassetetes, os jovens caminharam até a eles com as mãos para cima gritando “Silmiyyah! [Pacífico] Silmiyyah!”

Na praça Tahrir, no centro do Cairo, o Egito celebrou e refundou sua diversidade. Ali estava o povo: jovens de todas as origens e classes sociais marchando e cantando juntos. Aos mais velhos, figuras respeitadas, entregavam alimentos e cobertores. Fumo de cigarro, mulheres de jeans sentadas na calçada, antigos companheiros de movimento estudantil da década de 1970 que se reuniam pela primeira vez em décadas…

Pessoas que ficaram em casa telefonaram para restaurantes próximos, com ordens para entregar comida aos manifestantes. Nenhum slogan religioso ou sectário foi ouvido. A solidariedade era palpável. E se isso soa romântico, bem, era e é.

Então, a Central de Segurança atacou. Ferozmente. Dentro de cinco minutos mais de 40 botijões de gás lacrimogêneo foram lançados contra a multidão. Como eles resistem bravamente e não se dispersam, as forças especiais entram com bastões, canhões de água e, finalmente, balas de borracha. Pessoas foram agarradas e jogadas em caminhões da polícia. Centenas de pessoas foram levadas para delegacias.

As linhas telefônicas criadas pelo apoio judiciário e pelas organizações humanitárias começaram a tocar. Advogados em estado de espera dirigiram-se para os centros de detenção. O governo começou a bloquear as linhas de emergência e interferir na internet. O bloqueio de comunicações continua até hoje.

Por algum tempo, o Egito se sentiu como se estivesse sob ocupação. Hoje, o centro do Cairo estava sob cerco. Cerca de 100 manifestantes estavam em pé nos degraus do sindicato dos jornalistas, com bandeiras. Uma jovem mulher com um microfone estava se dirigindo aos soldados: “Relax” ela chamou, “Relaxe! Nós não somos o inimigo!”

O protesto estratégico desde o 26 tem sido manifestações rápidas que se reúnem e se dispersam rapidamente quando atacadas. Seu objetivo é manter as forças de segurança em suas mãos e não lhes permitir descanso. Hoje, sexta-feira, após as orações, é o momento do protesto clássico que todo mundo está esperando.

Há um nível de organização surgindo aqui. Ele pode ser melhor descrito como a solidariedade em ação. Em vários centros ao redor da capital, ativistas jovens estão criando clínicas improvisadas para atender aos feridos. No Hisham Mubarak (nenhuma relação com o presidente) pessoas não dormem há 48 horas. Eles têm documentado, desde 25 de janeiro, oito pessoas mortas, 24 feridos e mais de 800 detidos.

Os relatos publicados nos sites foram bloqueados e os celulares não estão recebendo chamadas, mas a informação continua vindo pela voz das ruas: prenderam um homem de 90 anos de idade, em Suez. Ele foi um líder da resistência em 1956. E agora está nos protestos junto aos jovens.

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